Mãe de criança com Microcefalia, por Zika Vírus, relata o dia-a-dia da família após chegada de Alice.

Filipe Almeida e Renato Almeida – Fim de tarde, o sol já está se pondo na rua Ipameri, no bairro do Ibura, Recife. Três batidas sutis no portão são suficientes para que Nadja, 43 anos, nos receba com um sorriso no rosto. Sua aparência é de cansaço e tristeza quando fala das incertezas envolvendo o quadro de saúde da filha. Apesar da cordialidade, há receio em seus olhos, algo que só entenderíamos no decorrer da entrevista. A mulher nos deixa no terraço, um pequeno espaço que também pode ser considerado sala de estar, devido aos sofás, estante e TV no local.
“Só um minuto, vou olhar se Alice tá bem”, explica, dirigindo-se para dentro da casa. Nadja entra apressadamente em um dos cômodos e sua voz ganha um tom infantil e afetuoso ao se comunicar com a filha de 2 anos. Aguardamos seu retorno. “Ela acabou dormindo”, informa após alguns segundos, sentando-se ao nosso lado. Suas mãos estão levemente trêmulas, porém ela nos olha determinada, indicando que podemos começar.
Iniciamos a conversa e, no decorrer da entrevista a voz da mulher falha, seus olhos ficam marejados, as mãos gesticulam com rapidez mas ela se mantém firme. Ela nos dá detalhes do período de gravidez, da descoberta de que sua filha era portadora da Microcefalia e as dificuldades atuais. Apesar do pouco tempo de convivência, é notável a força da mulher, ela se emociona fácil, mas parece saber a hora de parar de chorar e, de fato, agir.
Em 2015 foram contabilizados 428 casos da Microcefalia em Pernambuco, segundo o Ministério da Saúde. Alice foi um deles. Nadja e a família não receberam informações claras e objetivas sobre o porquê da filha ter adquirido a doença. Na verdade, o momento era de incertezas e pesquisadores de todo mundo começaram a vir ao Recife, inclusive à casa da família de Alice, depois de seu nascimento e só em novembro de 2015 associaram a Microcefalia ao Zika Vírus, de acordo com site do Governo Federal.
Após as últimas perguntas, agradecemos o tempo de Nadja e questionamos se podemos retornar no dia seguinte para filmar ela e Alice. A dona de casa concorda sem pensar duas vezes. “Olha, essa matéria só será usada na faculdade mesmo, né?”, indaga, ao nos levar até o portão. Explicamos que sim. A mulher agradece e vamos embora.
Domingo, 20 de maio de 2018
Por volta das 10h30 nos dirigimos novamente à casa de Nadja. Ao batermos no portão, somos recepcionados pelo João Batista, 56 anos, pai de Alice. O homem nos cumprimenta com um aperto forte de mão e reforça o receio de sua mulher em relação ao modo que usaremos a matéria. Explicamos que o conteúdo só será exposto em sala de aula, o que o acalma. Por fim, ele nos pede desculpas, pois não poderá ficar porque precisa terminar de preparar a marmita e ir trabalhar. “Sem problema, João Batista”, dizemos juntamente. Carlos, 17 anos, filho mais velho, aparece sorrateiramente na porta do terraço. Em seu olhar há curiosidade e desconfiança, cumprimentamos-o, mas não demora muito para ele retornar ao quarto, demonstrando não querer participar das gravações.
Nadja, por sua vez, nos pede para esperar Alice terminar de se alimentar. Ela nos leva até o quarto em que a menina costuma passar boa parte do tempo. O lugar é pequeno, porém bem arrumado. Na verdade, são dois cômodos em um só, divididos por uma parede que o intercala ao aposento dos pais. A cor rosa predomina nos móveis e no berço de Alice. A mãe conversa com a filha com carinho. A garotinha mantém os olhos fechados, parece dormir, mas volta e meia os abre preguiçosamente.“Usamos cerca de 6 garrafinhas e cateteres por dia”, explica João Batista. Nadja, por sua vez, levanta a blusa da filha e nos mostra a sonda de gastrostomia, aparelho próximo ao estômago que possibilita a alimentação de Alice.
Após alguns minutos de espera e breves conversas com João Batista, enquanto ajustamos os equipamentos, Nadja pega Alice e se dirige ao nosso encontro no terraço. Ela repete boa parte do que havia dito no dia anterior, mas desta vez se emociona menos; a filha no colo parece lhe dar força para encarar a dura realidade de sua própria fala, isto é, do que vivencia dia-a-dia em prol do bem de Alice. A garotinha em seus braços demonstra inquietação, mas aos poucos se alinha ao corpo da mãe. Perdemos as contas de quantas vezes a mãe repete o quanto a filha é linda, seu olhos brilham de encanto ao contemplar a garotinha.
A mulher nos explica, francamente, como foi receber a notícia que sua filha era portadora da Microcefalia e, consequentemente, as incertezas e a depressão que se fizeram presentes nos dois meses restantes da gestação. “O governo é mentiroso e faltoso!”, ressalta. “Tivemos que colocar na justiça, pois passamos dois anos comprando leite e alguns remédios”, responde indignada ao ser questionada sobre contribuições do governo. Mas por outro lado, demonstra admiração ao falar dos profissionais que buscam ajudar as crianças com a doença, entre eles, os especialistas e grupos de apoio não governamental, como os projetos “Anjos”, o “Amar — Aliança das Mães e Familias Raras” e o “Mães por todas”. Além de demonstrar um misto de cansaço e perseverança, ao citar o dia-a-dia corrido, devido às idas aos vários especialistas.
Apesar de toda as dificuldades e incertezas, principalmente em relação ao tempo de vida de sua filha, Nadja demonstra esperança e muito amor por Alice. “Alice é nome de fada, eu pesquisei no Google”, esclarece, com um sorriso genuíno, como até então não havia visto na face da mulher. “Ela é nossa fadinha”, completa evidentemente emocionada. A mulher teve a filha desenganada por um dos médicos tem noção das limitações da garotinha em seus braços, entretanto, permanece lutando pela vida e o bem da mesma. Nadja enxerga a filha como um milagre.
*Imagem meramente representativa. A matéria proteje a identidade das participantes involvidas.